29 janeiro, 2026

Percepção teatral

 Tal como quando aconteceu com o apagão, parece ficar claro que o primeiro-ministro, visto por uma certa perspectiva, não tem estofo para somar pontos com  o que no país corre mal e com a tragédia, seja de origem técnica, humana ou causada pelas indomáveis forças da natureza. Deveria fazer como todos fazem? Aparecer com os discursos do costume, falar ao país às 20 horas com ar pesaroso, vestir camuflados, fardas de bombeiros, colocar capacetes, óculos e luvas e dar mostras que está no terreno, no teatro de operações? Exactamente no teatro, como uma personagem teatral a interpretar um papel de figura zelosa e interessada?

Para o bem e para o mal, por inércia, personalidade ou cálculo, tem lidado com estas situações de um modo diferente da norma estabelecida, fora de tempo e da luz dos holofotes e das câmaras. Todavia, nesta sua forma de ser, estar e agir, o país da opinião, dos opinion makers, os dão notas como professores, não lhe perdoa em tudo quanto é palco de comunicação. Eu próprio, com tanta má nota,  fico sem saber qual das versões me agradaria, se a teatral se a outra, a discreta, menos presencial e espalhafatosa. Como no meio estará a virtude, talvez entre as duas, até porque percebo que nas horas de tragédia temos de nos agarrar a algo e a alguém, como a tomar uma pastilha Melhoral, que não fará bem nem mal.

Somos de percepções e algo falha quando não as recebemos de alguém. Nessa perspectiva teatral tem falhado o nosso primeiro e volta agora a falhar.

22 janeiro, 2026

Vão a sepultar o Sr. Talento e a D. Criatividade

Vivemos um momento singular da história criativa. Nunca foi tão fácil produzir imagens, textos, ilustrações, composições visuais e conteúdos gráficos de aparência mais ou menos rebuscada ou sofisticada. Bastam alguns comandos escritos (prompts), algumas palavras-chave bem formuladas, e a inteligência artificial devolve, em segundos, aquilo que antes exigia talento, anos de estudo, prática e amadurecimento artístico. Esta facilidade, porém, levanta uma questão essencial: estaremos a assistir à democratização da criatividade ou à sua banalização, como se todos possamos ser artistas criativos e talentos, mesmo que prática sejamos incapazes de desenhar o ovo.

A proliferação de conteúdos gráficos gerados por inteligência artificial, nomeadamente através de plataformas como a popular ChatGPT e outros sistemas generativos, está a inundar as redes sociais, mas não só. A estética passa a sobrepor-se à intenção, o impacto imediato substitui o processo reflexivo, e a originalidade dilui-se numa repetição algorítmica de padrões já existentes. O resultado é um mar de conteúdos visualmente apelativos, mas, no geral, sob um ponto de vista artístico, vazios ou de gosto merdoso. Na realidade e na essência, esses processos usam trabalhos e obras de terceiros, sendo que a verificação é quase impossível, logo igualmente impossível reclamar direitos.

A arte sempre foi, antes de mais, um exercício de consciência, sensibilidade e risco. O verdadeiro talento nasce da inquietação, do erro, da dúvida, do conflito interior e da tentativa constante de traduzir emoções, experiências e visões únicas do mundo. A criação artística é um percurso, não um produto instantâneo. Quando este processo é substituído por uma resposta automática, sem qualquer custo, perde-se a essência da expressão humana, até mesmo a imperfeição que torna cada obra irrepetível.

A vulgarização surge precisamente neste ponto: quando a produção massiva esvazia o significado. O acesso fácil a conteúdos gerados por IA promove uma cultura de consumo rápido, onde o valor da obra é medido pela sua capacidade de gerar cliques, partilhas e reações imediatas. Neste cenário, o tempo da contemplação, da interpretação e da crítica é reduzido ao mínimo. A arte transforma-se num mero artefacto visual, descartável e substituível. Desconfio que a curto prazo vamos ficar enjoados de tanta fartura visual, de imagem ou vídeo, de mais do mesmo, mas se algum dia a situação será revertida, já não acredito.

Muito preocupante, ainda, é o impacto deste fenómeno sobre os criadores humanos. Ilustradores, designers, fotógrafos, escritores e artistas em geral veem o seu trabalho competir com produções instantâneas, gratuitas e ilimitadas. A desvalorização económica acompanha inevitavelmente a desvalorização simbólica. Quando tudo pode ser criado em segundos, o esforço, a formação e a experiência tornam-se invisíveis, quase irrelevantes aos olhos de um mercado que privilegia velocidade e volume.

Defender o valor da criação artística não significa rejeitar o progresso tecnológico, mas sim exigir uma utilização consciente, ética e culturalmente responsável dessas ferramentas. A arte não deve ser reduzida a um produto estatístico baseado em probabilidades; deve continuar a ser um espaço de subjectividade, de identidade e de questionamento.

Num mundo cada vez mais saturado de vídeos e imagens perfeitas e textos impecáveis, talvez o verdadeiro acto revolucionário seja preservar o imperfeito, o inacabado, o singular. Porque é precisamente aí, na falha, na hesitação e na tentativa, que reside o que nos torna genuinamente humanos.

Não obstante, convenhamos, a reversão ou mesmo moderação, serão já uma utopia. Uma impossibilidade.

21 janeiro, 2026

É isto viver?

Entardece. Dali a nada é o jantar. Depois um esforço para ver televisão, mas os filmes repetem-se, as séries têm desfechos previsíveis e o resto é o habitual desfile  de misérias humanas ou divagações inúteis: as mesmas notícias, os mesmos comentários, seja sobre política, futebol, guerras ou esforços sobre a conservação da minhoca de anel dourado e afins.

É cedo, mas depois de um chocolate confortante, na cama o entorpecimento ajuda a diluir quaisquer pensamentos sombrios sobre mais um dia que se esgota sem nada que o diferencie de muitos outros. E é isto viver? Sobreviver, talvez?

Amanhá será outro dia. Talvez igual.

20 janeiro, 2026

Perda de tempo

A reunião que dizem que vai acontecer hoje entre o Primeiro-Ministro e a ministra do Trabalho com o secretário-geral da CGTP, tem um desfecho garantido: o desacordo. Por conseguinte, esta reunião é daquelas coisas que bem podem ser sinómino de perda de tempo, a de uma completa inutilidade. Em bom rigor, a reunião só se realiza num pressuposto de hipocrisia, em que cada uma das partes pretende transmitir uma ideia de que está aberta ao diálogo. No entanto, desde logo pelo historial e comportamento, sabe-se que a CGTP, por ortodoxia, fundamentalismo ideológico e ao serviço do PCP, tem uma postura congénita de estar sempre contra, seja em que circunstância. Posto isto, qualquer pontinha de acordo seria contra-natura e caso para festejar o acontecimento com a instauração de um feriado nacional, o Dia do Entendimento Impossível.

É, pois, uma reunião para fazer de conta. Poderia, muito bem, realizar-se no dia de Carnaval ou no primeiro de Abril. Teria mais propósito.

Carneiro a ser carneiro e os seus amigos contorcionistas

Que bonito e caricato é ver agora as figuras socialistas, as mesmas que tanto depreciaram e desconsideraram António José Seguro enquanto proto-candidato e candidato, a "engolirem sapos" e a contorcerem a espinha. Reclamam agora um estatuto de "amigos de infância", desde a escola primária, acotovelando-se para ficar ao lado daquele que, se depender de mim, será o próximo Presidente da República.

Esta gente não tem vergonha nem espinha dorsal. Pensam que as pessoas -  a começar pelo próprio Seguro, para muitos deles o "Tozero", não têm memória. Mas têm! Veja-se o exemplo recente de Marta Temido: deve estar com dores de tanto torcer a espinha, dada a contradição absoluta entre a opinião que tinha e a que agora demonstra pelo "quase" Senhor Presidente. Já antes se desconcertara da espinha o Augusto Santos Silva.

Por outro lado, José Luís Carneiro, que tenho como inteligente e moderado, agindo como se fosse o obreiro da vitória de Seguro (que apenas apoiou por obrigação), vem exigir ao Primeiro-Ministro que se coloque ao lado do candidato. Mas por que carga de água? O Primeiro-Ministro já deixou claro que nenhum dos candidatos na segunda volta representa o seu espaço político; logo, não tem de se pronunciar, muito menos declarar apoio. Parece-me argumento bastante.

Além disso, há um detalhe que faz toda a diferença: ele é Primeiro-Ministro e tem de governar. E outro que fosse. Sem maioria parlamentar, num esforço constante de entendimento à esquerda e à direita, em nada o ajudaria posicionar-se agora. Quem não compreende isto? Talvez um "bronco", mas Carneiro? Era escusado!

Enfim, se este cenário tira do sério até o mais santo, a verdade é que não surpreende. Afinal, é com esta massa que se coze a nossa política e as suas figurinhas.

19 janeiro, 2026

Seguro, seguramente

Tal como previ com bastante antecedência, os resultados das eleições de ontem vieram confirmar a insignificância dos partidos na extrema canhota. Durante todo este tempo de campanha falaram afanosamente do povo, dos trabalhadores, da classe operária, da defesa da democracia e da constituição. Apregoaram-se como os donos morais destes valores. Mas estão desfasados, porque, na hora de fazer as escolhas, o povo remete-os à insignificância eleitoral e política. Até mesmo o imberve Jorge Pinto, que surgiu na disputa como uma espécie de Cristiano Ronaldo dos candidatos, ficou abaixo do bobo da corte. Ou seja, falar a sério ou a apalhaçar teve o mesmo valor. Na realidade até menos, pois gozar com a coisa até deu mais votos. Sintomático!

Em resumo, tal como era previsível, os candidatos canhotos todos juntos valeram 4,38%. Ridículo, mas no rescaldo da derrota, continuam a dizer que vão andar por aí, como se continuem a falar em nome dos pseudo-3 milhões que dizem ter agregado na Greve Geral. Tretas! Tretas! Tretas!

Quanto ao resto, votei Cotrim, em nome da defesa aos ataques sem precedentes de que foi alvo, sobretudo pela nossa obtusa comunicação social. Na eleição próxima, que definirá a figura que habitará o palácio de Belém, votarei convictamente em António José Seguro.

O vencedor desta primeira volta, pode não ser deslumbrante, nem político manhoso e interesseiro, e por isso tão desconsiderado por figuras gradas do seu partido, que agora, engolindo sapos e rãs, saem da toca com as mãozinhas quentes para as habituais palmadinhas nas costas e afagos pelo pêlo. Deste vez não foi por poucoxinho. Já agora, estou a aguardar pelas consideração do autor do golpe palaciano, o Sr. Costa.  Como todos os demais, vai ter de engolir e debitar coisas simpáticas. A melhor vingança (não que veja Seguro como vingativo e rancoroso) serve-se fria. Em todo o caso, não deve esquecer.

No resto, não acredito que a próxima eleição seja entre a esquerda e a direita. Se fosse, André Ventura já estava eleito. Mas não, parece-me, será sobretudo entre o radicalismo e a moderação e bom senso. É certo que considero que as coisas já lá não vão com paninhos quentes,  com mais do mesmo, mas seguramente, neste quadro de opções, não será com Ventura, mas seguramente com Seguro, mesmo que deste não se esperem arrojos.

Fora do que foi a eleição, o habitual, com uns a transformarem isto em eleições legislativas, recados, cartões amarelos e vermelhos, derrotas em vitórias, blá, blá, blá.

A novela segue dentro de momentos!

15 janeiro, 2026

Onde estão os "3 milhões"

Não sou dos que acreditam "às ceguinhas" em sondagens, desde logo porque sabemos que, de um modo ou de outro, são manipuladas consoante os interesses que pretendem servir. Quando muito, funcionam como meros indicadores. Ainda assim, no que toca à cauda da tabela, poucas dúvidas tenho de que a percentagem de votação andará ali pelos 3% ou até abaixo disso.

António Filipe, Catarina Martins, Jorge Pinto e os habituais bobos da corte terão de se contentar com as migalhas do costume. Tirando a vertente cómica, que apenas desprestigia o acto eleitoral, os candidatos da velha esquerda, todos juntos, dificilmente ultrapassarão os 6%. E, no entanto, todos eles falam empenhadamente em nome dos trabalhadores, da classe operária, dos problemas do SNS, dos malefícios do pacote laboral, da defesa da Constituição, a de Abril, a deles.

Ou seja, são poucos, muito poucos, os que lhes dão crédito. Onde estão os “3 milhões” que, segundo a sua narrativa, lhes deram voz aquando da greve geral? O problema, nestas contas, é simples: os votos contam-se com rigor, enquanto que, nas greves, tudo não passa de uma espécie de adivinhação a olhómetro, onde entram para a soma até aqueles que foram arrastados por falta de transportes e de quem lhes abrisse as portas dos serviços, mesmo contra a sua vontade.

Nesse sentido, uma eleição é sempre clarificadora quanto ao real peso dos valores que essa esquerda caduca diz defender. O problema talvez nem esteja nos valores em si, porque muitos deles também eu defendo, mas sim na forma e nos métodos. É aí que têm falhado e é aí que, eleição após eleição, insistem em não aprender.

Costuma-se dizer que nunca é tarde para aprender, mas esta gente desconhece o ditado.

13 janeiro, 2026

Ei-los, com palmadinhas e todo sorrisos

Bastou que António José Seguro surgisse bem posicionado nas sondagens para que muitos daqueles que, no Partido Socialista, o consideravam um candidato fraco - e que não se coibiram de assumir publicamente posições de desconsideração da sua figura, na expectativa de que outro avançasse -  viessem agora a público manifestar o seu apoio e a apregoar virtudes que, ainda há dois meses, de todo não vislumbravam.

A isto chamam oportunismo e tacticismo. Creio, porém, que é mais do que isso: trata-se de falta de vergonha e de honestidade intelectual. Ainda assim, nada que surpreenda.

12 janeiro, 2026

Por moeda ao ar

A poucos dias da eleição presidencial, confesso que estou indeciso: Quanto ao candidato e até mesmo se em participar. Os candidatos não têm ajudado. O nível no geral é baixo e todos eles falam e prometem como se a eleição seja para as legislativas e dali saia um primeiro ministro. Entre gente do sistema, representantes de partidos, broncos, apalhaçados e afins, não há ponta por onde se pegue. Será sempre uma escolha do menos mau. Talvez seleccionar dois do naipe e lançar moeda ao ar.

Seja como for, ficaremos sempre a perder mas, às tantas, temos mesmo os candidatos que o país merece. O testo ajusta-se sempre à panela.

08 janeiro, 2026

Amadorismo - Para não levar a sério

Na secção "Perguntas Frequentes" da Comissão Nacional de Eleições sobre a eleição presidencial, ficamos esclarecidos:

- Quem pode ser candidato?

"Podem candidatar-se à Presidência da República os cidadãos de nacionalidade portuguesa, com capacidade eleitoral ativa e que sejam maiores de 35 anos".

Em resumo, e se bem percebo, em Portugal para se ser professor, médico, advogado ou engenheiro, etc, tem de se ter a respectiva habilitação académica; Dizem que até um cantoneiro municipal tem de ter o 5.º ano de escolaridade; Qualquer cidadão para conduzir um veículo automóvel tem de ter a respectiva carta de condução, e um lavrador para comprar e aplicar um pesticidade tem de ter uma formação, etc, etc.

Apesar de tudo isso e de forma muito compreensível, já para presidente da República Portuguesa, considerado o mais alto cargo da nação, pode ser qualquer bronco, com a importante ressalva de  "com capacidade eleitoral" e desde que com mais de 35 anos. Ora por este largo portal em rigor, desde que consiga mendigar o número de assinaturas legalmente exigidas, coisa pouca, qualquer um pode entrar, bronco, analfabeto, cego, coxo, retardado das ideias, alucinado, etc. 

Posto isto, só surpreende que não seja maior o número de candidatos, desde os mais políticos e do costume, os mais discretos e comedidos, até aos mais "apalhaçados". Em rigor, podemos ter candidatos que mais não fazem que achincalhar o sistema, a gozar com a coisa,  a brincar com eles próprios e com os demais cidadãos, que tudo é normalidade. Às tantas ficamos sem saber se isto é coisa séria ou se apenas um stand up comedy.

A poucos dias da dita eleição, e face ao que se tem visto, pergunto a mim mesmo se há motivo para ir votar, ou se também devo entrar na onda e considerar que é coisa para não levar a sério. Se fico com a dúvidas, basta olhar para o que será o boletim de voto para perceber que, definitivamente, é mesmo para não  levar a sério ou então riscar a cruz num daqueles candidatos que já não contam para o totobola mas constam no bilhete de apostas como se fossem a jogo.

Não há paciência para tanto amadorismo!

05 janeiro, 2026

Cair de maduro

Concerteza que a recente acção dos Estados Unidos na Venezuela, que levou à detenção do ditador Nicolás Maduro, é um desrespeito pelo Direito Internacional e abre graves precedentes. Ponto!

Todavia, de outro modo, não estou a ver como é que aquele povo, na sua maioria, conseguiria de forma natural e pacífica assegurar um regime democrático e libertar-se das garras de um regime ditatorial, corrupto e narco-traficante. Por vezes, temos de aceitar que é necessário escrever-se direito por linhas tortas.

Não sei, nem os especialistas, onde é que esta situação vai parar e se mesmo assim alguma coisa vai mudar no regime da Venezuela. Creio que não, porque o polvo tem os seus tentáculos bem espalhados. Mais verdes ou maduros, sempre haverá gente diposta a sacrificar um povo.

De tudo isto, foi surpreendente como o fanfarrão do Nicolás Maduro foi apanhado na sua própria casa, como que assaltado por um qualquer ladrãozeco de bairro. Simultaneamente triste, humorístico e dramático.

Das reacções, o costume: A hipocrisia e a cara de lata de muitos, desde logo da Rússia, a reclamar o respeito pelo Direito Internacional, como o que fez  e continua a fazer na Uncrânia seja exemplo desse respeito. Mesmo a China, moralista, há muito a preparar o mesmo para açambarcar Taiwan, no que será uma mera questão de tempo e oportunidade.

Face a isto, as coisas continuam a ir por um caminho perigoso e nunca a situação internacional esteve tão incerta e perigosa. Para já, aos peões, como eu e quase todos, apenas resta assistir.

Taras e manias

Com a divulgação de uma primeira leva da lista de empresas associadas à Spinumviva, e dizem que outras mais virão, aqueles que a reclamaram ...

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