11 agosto, 2026

Mansos cordeiros

  Coisas que nos deviam fazer pensar:

- Que nos seja negado o direito constitucional de livre acesso e circulação no espaço público, numa zona nobre de uma vila ou cidade, durante quase duas semanas, a pretexto e favor de um evento de entretenimento.

Há quem ache isso normal e até aceite com um sorriso. Talvez os mesmos que dão as nádegas livremente à obrigação de uma vacina. Um dia destes aceitarão que lhes seja cravado nas orelhas um brinco identificativo, como se faz ao gado ou às ovelhas de um rebanho.

Apesar disso, são capazes, se os meterem num autocarro e lhes derem umas bandeiras e cartazes, de se juntarem numa manifestação em defesa dos direitos consagrados na santa Constituição ou contra a quem pretenda alterar, mesmo que pelas regras da democracia.

10 agosto, 2026

Notas de um rodapé desleixado

A nossa televisão pública é o que é: um sorvedouro dos impostos dos contribuintes e pouco mais. No resto — e para além de ter menos espaços publicitários —, em nada se diferencia da concorrência. É banal, folclórica, popularucha e desleixada.

Ainda hoje, naquele rodapé rolante, surgiam calinadas a torto e a direito. Numa nota, informava que, na Volta a Portugal, o francês Alexis Guérin tinha vencido isolado no alto da Torre e que, por isso, arrebatara a camisola amarela. Logo de seguida, exibia a informação de que, no final da 3.ª etapa, Rui Oliveira mantinha a amarela, mesmo após a vitória de Linarez em Elvas. Ou seja, cruzava uma notícia fresca com outra completamente desactualizada, que já ali não deveria estar.

Na mesma sessão, numa notícia relacionada com a guerra na Ucrânia e as acções na Crimeia, referia-se a um "comandante craniano". Escapou-se o "U" — coisa pouca, dirão. Deve ter sido um lapso de memória combinado com um problema craniano.

03 agosto, 2026

Seres humanos, certamente, mas não só

Não há muito a dizer sobre a invasão de Ceuta. Para além das dezenas de mortes de quem agiu por sua conta a risco, o caso serviu para mostrar que é possível uma invasão, com base em aspirações legítimas, o querer procurar melhores condições de vida, mas de modo ilegal e contra todas as regras que devem pautar a emigração. 

Certamente que este caso, como outros, teve a mão de redes criminosas e a conivência das autoridades de Marrocos, mas assente  na venda de uma ideia a toda aquela gente, a de quem em Espanha e em Portugal é fácil entrar e viver, e onde a ilegalidade acaba por ser relevada. Ou seja, o objectivo é chegar a esses países e logo se verá, mas no geral, mesmo que sem condições básicas de integração, acabarão por fazer parte da população, mesmo que à frente todos pareçam ficar surpreendidos (como em Portugal) com os números apresentados pelo INE.

O presidente António José Seguro referiu-se a essa horda de invasores, como "seres humanos". Com certeza que sim, e percebemos o teor humanista das suas declarações, mas os "seres humanos", sobretudo por essa condição, têm de cumprir regras, obrigações e deveres. Não o fazendo nem respeitando, perdem muito do conceito de humanidade. 

Dá que pensar, o assunto é sério, mas revela muito do que pode acontecer quando os Estados e seus governos descuram as regras a que devem obedecer a migração. Sem elas, recuamos e regredimos aos tempos das invasões bárbaras, em que vale tudo.

30 julho, 2026

A propósito de trapalhadas de gente, que dizem competente

No contexto das trapalhadas dos ministros da Educação e Administração Interna: 

O que me preocupa nisto tudo, é olhar para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, e no nosso panorama político não ver quem quer que seja que possa ser uma alternativa séria e que se rodeie de virgens, abstémios e celibatários no que toca a incumprimentos, do mais substancial ao mais lingrinhas, como não ter declarado à autoridade de transparência quantos pastéis de bacalhau tem no congelador. Pelo que se vai vendo, mesmo os tidos como mais competentes, eles ou as santas esposas e benquistos filhos, têm engulhos e telhados de vidro, amigos não rocomendáveis, tanques e marquises sem licença.

Eu, que pela minha ocupação profissional, que até sei que um edifício com cinco pisos, sede de uma das maiores empresas deste país, está edificada e em utilização há dezenas de anos, alterada no projecto e sem título de utilização, e centenas de outros casos similares, só cá na zona, no panorama urbanístico, espanto-me que um secretátio de Estado ou ministro possa perder o lastro de reconhecida competência por questões que, se bem espremidas, não passam de lana-caprina, mas bidões de gasolina para os incendiários da comunicação social e políticos do lado oposto da barricada.

Mas disse, no início, que me preocupa, mas, pensando melhor, não me preocupo de todo. Nunca votei com entusiasmo, e jà à esquerda, ao centro e à direita, mas é ponto assente que para mim terminou esta tradição inútil de fazer a cruzinha à frente de uma sigla ou de um rosto. Qualquer um serve, porque na certeza de que para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim. Significa que, de um modo ou outro, estamos, de há muito, e continuaremos a estar, entregues à bicharada.

19 julho, 2026

Exagerar o exagero

Os tempos são de exageros. As narrativas procuram servir propósitos que não os essenciais. Parece estar assente a crença de que quem mais berra mais razão terá e de que uma mentira repetida até à exaustão acaba por se tornar uma verdade absoluta, mesmo quando está repleta de segundas e terceiras intenções, umas duvidosas, outras claramente falaciosas.

Ainda agora, com a questão das trapalhadas dos exames escolares, que de facto existiram, a tónica tem sido a do exagero extremo. Políticos de toda a oposição, que não largam o osso e insistem em mexer na ferida para que esta nunca cicatrize e haja sempre sangue fresco - coisa de moscas e vermes - , mas também, com igual ênfase, a comunicação social, parte da classe docente do ensino público, que naturalmente não aprecia que mexam no status quo nem em processos ou reformas que, de algum modo, lhes retirem protagonismo ou capacidade reivindicativa e por arrasto os sindicatos e sindicalistas.

De todos se têm ouvido expressões como "angústia", "desconfiança", "desespero", "caos", "insegurança", etc., todas elas contribuindo para um ambiente de alarme, como se o mundo estivesse a colapsar e os estudantes e respectivas famílias vissem comprometida a projecção das suas vidas e vidinhas. Logo à cabeça surge o planeamento das férias, coisa importante, pelo menos para mim, que a questão resume-se a saber quantas tardes irei passar na praia mais próxima de casa.

Adiante. Não quero com isto dizer que o assunto não seja sério nem que as preocupações dos alunos e dos pais não sejam legítimas. Mas eu, já dispensado da educação escolar dos filhos, estou-me metaforicamente a cagar para a questão. O que me surpreende é este estado colectivo de alarmismo e a pintura de um cenário totalmente negro, sem um único lampejo de cor.

Se querem realmente preocupar-se - desde logo a comunicação social - com verdadeiras e fundadas causas de "angústia", "desconfiança", "desespero", "caos" e "insegurança", então deem atenção aos milhares de doentes que diaria e consecutivamente aguardam consultas, exames, cirurgias e tratamentos; a quem espera horas por uma simples consulta; a quem vê exames e cirurgias adiados mês após mês. Isto sim, são verdadeiros casos de vida ou de morte.

Face a estes problemas, reais e graves, que não são de agora nem deste Governo, a questão das trapalhadas dos exames e dos adiamentos por dois ou três dias, ou mesmo de uma ou duas semanas, desculpem lá, mas parece irrisória, quase ridícula.

Por conseguinte, não vai acontecer, mas seria desejável que a classe política e a comunicação social fossem mais sérias e menos alarmistas, tratando cada assunto com o devido peso e proporção. Mas, como disse, não vai acontecer porque a seriedade, ética e deontologia são valores que já  não preocupam a classe. Os políticos, esses alinham e lançam gasolina para a fogueira do alarmismo. Uns e outros (des)afinam pelo mesmo diapasão para que a orquestra pareça mais desafinada do que é. É a música que querem que ouçamos.

17 julho, 2026

Só coxos e mancos

A propósito de mais uma trapalhada a envolver gente do Governo, no caso o ministro da Administração Interna, já estou a tratar de pedir as facturas pela construção de um galinheiro e de um lago para patos, não aconteça ser chamado para o Governo.

Já agora, quanto a piscinas ou tanques sem licença, trabalhando no sector urbanístico, posso dizer que cá pelo concelho serão largos milhares de obras não licenciadas, desde as mais básicas às mais significativas, incluindo habitações sem títulos de utilização. Propriedades de zés da esquina a empresas de nome local e nacional. No país, proporcionalmente, serão milhões. 

Não me preocupa particularmente esta situação: Preocupa-me, sim, que daqui a pouco não haja pessoas sérias, sem rabos de palha ou telhados de vidro, que reunam condições de governar. Também não me preocupam algumas outras trapalhadas deste Governo que ofuscam o que de válido tem sido feito; preocupa-me é olhar para a oposição, como um treinador para o banco, e ver que ali não há absolutamente ninguém que esteja à altura da mudança e das circunstâncias. Só coxos e mancos e fala-baratos, cada um mais bronco que o outro, demagogia a potes, a ver quem vende mais papas e bolos. Isso sim, é preocupante. 

Nesta pobreza de valores, o ter amigos empreiteiros, ou falta de facturas, incluindo as das compras no supermercado, é o menor dos problmas. O maior é mesmo o termos uma classe política incapaz.

Quanto às facturas do supermercado, também, pelo sim pelo não, vou passar a guardá-las, pelo menos durante 10 anos.

14 julho, 2026

Transtornos

A introdução do novo modelo de correção digital dos exames nacionais do ensino secundário neste ano de 2026 tem gerado supostas  crises de confiança no sistema educativo português. O descontentamento e a contestação pública partem de professores, sindicatos, partidos políticos da oposição e das próprias famílias apesar de, supostamente, a coisa gerar um atraso no calendário de apenas dois ou três dias.

Já se sabe, somos avessos a mudanças e reformas estruturais e sempre que estas são implementadas, os governos que as introduzem são massacrados pelos resistentes e pelos que preferem as coisas à moda antiga e não dispensam os agrafes. As oposições, essas estarão sempre contra, seja lá quem for. Os sindicatos, idem, porque é seu modo de vida e por isso se justifica que um certo dirigente da FENPROF tenha estado ao comando 18 anos, firme como uma nogueira a dar vozes (não, não é erro, é mesmo vozes). Ora se Paulo de Carvalho cantarolava que "...dez anos, é muito tempo,,,".

Apesar disso, da legitimidade e razão para as queixas, e muitas são sistémicas porque sindicais, e a normalidade e mesmo o folclore é pedir a demissão e cabeças dos ministros e governos, espanta que ninguém se queixe,  se surpreenda e indigne sempre que há greves nas escolas (e são mais que muitas). Onde está a indignação dos pais e alunos e sociedade nessas situações?  Nessas alturas não há inconvenientes nem prejuízos para pais e alunos?  Qual a preocupação dos sindicatos por ambos?

É tudo um negócio, seja nacional ou mundial

Sobre a relevância, ou não, da dita selecção francesa de futebol, no actual Mundial da modalidade, ter 23 dos seus 26 jogadores nascidos em França apesar da maioria serem negros ou magrebinos. Ou ainda, por 19 dos 26 jogadores da selecção marroquina terem nascido fora de Marrocos. 

Para os puristas do nacionalismo, será, de facto, uma confusão. Apesar disso, creio que hoje em dia é irrelevante. Jogadores negros há em todas as selecções, mesmo na Suécia, Noruega e Suiça. Já suecos, noruegueses e suiços no Congo ou outro país africano, devem ser mais raros que ursos polares no Sara. É apenas o reflexo da mistura das raças e culturas nas sociedades, sobretudo ocidentais. 

Parece-me, pois, uma falsa questão e apenas pode fazer confusão a alguns porque na essência o conceito de selecção nacional, de algum modo, reflectia as características intrínsecas da raça e cultura de cada país, o que já se perdeu há décadas. Por conseguinte, talvez o que esteja desajustado seja o termo selecção nacional. Invente-se outra designação e deixe-se cair o nacional (que, para além das bolachas) já deixou de ser bom.

Para além de tudo, o futebol, mesmo neste contexto mundial das ditas selecções, é apenas parte do negócio e este não se compadece com purismos raciais ou culturais. Veja-se, entre outras modalidades, o caso dos brasileiros em várias selecções nacionais de futsal. No atletismo, entre tantos exemplos, veja-se o caso do cubano Pedro Pychardo. Por conseguinte, isto de nacionalidades no desporto e o mérito dos países, tem que se lhe diga.”Everything is business”.

Mas, como disse alguém, o mundo começou a ficar “complicado” quando Portugal jogou, no Mundial de 1966, com quatro portugueses africanos, todos nascidos em Moçambique: Hilário, Vicente, Coluna e Eusébio. E, como respondi, com este frenesim de ajuste de contas com a história que por aí anda, ainda acabaremos por ser responsabilizados por abrir a caixa de Pandora.

O mundo está mesmo um jardim de florzinhas de cheiro, que tremelicam por tudo e nada.

07 julho, 2026

Os deuses desceram à terra

Cinco jogos da nossa selecção de futebol neste mundial dos intervalos para publicidade e despenalizações de cartões vermelhos a pedido. Em três deles o nosso guarda-redes foi o melhor em campo, o que diz muito da coisa. Um treinador espanhol que nunca conseguiu fazer daquele lote de príncipes e deuses da bola uma selecção. E modelos não faltaram, como Cabo Verde, por exemplo, ou a Noruega. O treinador não passou de medíocre. Era preferível que não soubesse falar português mas que fosse competente a fazer jogar uma equipa.

Apesar de tudo, a eliminação dos oitavos tem coisas positivas, como o voltar à normalidade: Os balões perderam o ar, os deuses com pés de barro desceram à terra, o povo, que encheu estádios e praças num entusiasmo infantil tem de retomar o trabalho e os príncipes da bola, esses vão de férias de luxo para locais paradisíacos. 

A vida continua e o futebol, queira-se, ou não, não lhe faz falta alguma. Há coisas bem mais importantes. Ficaria contente com a vitória, certamente, mas não trocava um quilo de tomates da minha horta por uma vitória da selecção. 

03 julho, 2026

O país está a arder - Mas há bola!

O país está a arder, mas não pela vaga de calor. Arderia de qualquer forma, por rotina, por inércia, porque o trágico entre nós se tornou previsível e aceitável.

Contudo, o que realmente acontece ao país parece não interessar ao próprio país. A prioridade colectiva é encher praças para venerar o futebol e abdicar das horas de sono necessárias a quem trabalha. Dava imenso jeito que os profissionais das greves tivessem agendado uma geral para hoje; o alinhamento  seria perfeito. Sendo sexta-feira, o povo agradeceria o privilégio de dormir até mais tarde, recuperando da vigília nocturna dedicada a assistir a vinte e dois milionários a pontapear uma bola. Sem a greve, resta-lhes arrastarem-se pelo dia fora, bocejando e passando pelas brasas no posto de trabalho.

Entretida com o circo mediático, a pátria divide-se em discussões existenciais sobre Cristiano Ronaldo e o seu lacaio espanhol, ignorando olimpicamente o colapso na Venezuela ou a barbárie na Ucrânia. Ocasionalmente, comovem-se com o resgate milagroso de uma vida humana sob os escombros, uma novidade jornalística que serve para anestesiar a consciência, enquanto se normaliza a morte diária de milhares de pessoas, invasores e invadidos, num conflito que já dura há anos e que à falta de alvos militares apontam-se as miras para os residenciais.

Tudo é relativo, e a máxima de que "pimenta no cu dos outros é refresco" continua a ser o nosso farol moral. Os próximos dias seguirão o guião habitual: o território a arder, a Ucrânia a sangrar, a Venezuela a sufocar no esquecimento e, acima de tudo isto, o que verdadeiramente importa: a Seleção Nacional continua em prova, preparando-se para medir forças com os espanhóis. 

Resta saber se o país regressará à normalidade dos pés assentes na terra ou se continuará levitado, anestesiado e feliz, a flutuar atrás da bola, até à final.

Mansos cordeiros

  Coisas que nos deviam fazer pensar: - Que nos seja negado o direito constitucional de livre acesso e circulação no espaço público, numa zo...

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