Há lugares que só são tranquilos para quem passa por eles depressa ou os observa como bucólicos presépios, de figuras arrumadinahs, imóveis e serenas.
Quem chega de fora vê o monte, a luz inclinada sobre os telhados, uma chaminé a deitar fumo ao fim da tarde. Percorre deliciado as ruelas e caminhos ladeados de árvores de fruta ou ramalhetes de cravos, rosas e sardinheiras.
Ouve os galos, fotografa a igreja e a capela, talvez compre um queijo ou um salpicão numa mercearia onde tudo parece ter sobrevivido ao tempo. Fotografa o casario, a ponte, os muros, as horas, o cão indolente à sombra ou o gato sobre o beiral.
Depois regressa à cidade com a sensação reconfortante de ter encontrado um pedaço de mundo que ainda não foi estragado. Talvez passe esse entusiasmo aos amigos, escreva sobre a experiência e a transbordar inspiração até lhe saia um poema.
É uma ideia bonita. Mas também é mentira ou um quadro de cores não tão vivas.
A pitoresca aldeia não começa na paisagem. Começa quando se fecha a porta de casa.
Porque viver perto dos outros é conhecer-lhes os hábitos até ao detalhe. Saber quem se levanta cedo, quem bebe demais, quem não paga o que deve, quem olha pela janela quando alguém passa. Saber quem cumprimenta com entusiasmo e quem apenas move os lábios. Saber de quem é o cão que ladra toda a noite, quem deixa o carro atravessado ou à frente do portão, quem apanha a fruta ou colhe um molho de couves no quintal alheio quando pensa que ninguém está a ver.
Aqui toda a gente se conhece. E talvez esse seja o problema.
Na cidade podemos ignorar o vizinho durante vinte anos. Aqui é preciso encontrá-lo amanhã. E depois de amanhã. E no domingo, à saída da missa, na fila da padaria, ao balcão do café, na bancada do campo de jogos ou na romaria da terra. É preciso continuar a dizer bom dia à pessoa que ontem nos chamou nomes, à mulher que espalhou uma mentira sobre a nossa família, ao homem que deixou o lixo diante do nosso portão ou a quem sabemos que nos morde pelas costas e esconde a mão que atirou umas pedras.
Não por amizade. Por sobrevivência.
A educação, nestas terras, às vezes não é uma qualidade. É uma arma de segurança.
Aprende-se cedo a sorrir quando seria mais natural cerrar os dentes. Aprende-se a baixar a voz, a escolher as palavras, a deixar passar certas coisas. Não vale a pena comprar uma guerra por causa de uma ofensa dessimulada, de um muro, de uma árvore, de um pedaço de água ou de três metros de terreno.
Só que as guerras pequenas têm uma particularidade: nunca desaparecem. Ficam.
Passam de geração em geração como passam as casas, os apelidos e as terras. Um homem morre, mas a zanga fica para o filho. Uma ofensa antiga ganha netos. Uma disputa por uma levada ou uma nascente de água transforma-se numa história de família. Há rancores tão velhos que já ninguém consegue explicar onde começaram, mas todos sabem perfeitamente quem tem razão.
É isto que os visitantes não fotografam. Não fotografam o silêncio depois de uma discussão.
Não fotografam duas pessoas que se cumprimentam à porta da mercearia enquanto cada uma pensa coisas que jamais dirá.
Não fotografam a janela que se fecha quando alguém passa. Não fotografam a mão que desaparece dentro do bolso.
Preferem o pão acabado de sair do forno, a senhora de lenço na cabeça, o velho sentado ao sol, a horta alinhada em pés de alface, tomates e couves , o sino da igreja, o cantarolar do riacho. Preferem chamar autenticidade àquilo que, para quem vive aqui, é simplesmente a vida, uma teia peganhenta de que dificilmente se escapa.
E a vida não é só autêntica nem pitoresca. A vida é uma coisa que acontece às pessoas.
Às vezes com ternura. Às vezes com crueldade, invejas e rancores. Na maior parte do tempo, com uma mistura de tudo.
Por isso, na aldeia, continuamos a sorrir. Sorrimos ao homem que sabemos não suportar.
Sorrimos à mulher que sabemos falar de nós pelas costas. Sorrimos ao vizinho que nos deve dinheiro mas que se esquece das datas para o devolver com juros.
Sorrimos a quem nos roubou qualquer coisa pequena, porque amanhã poderemos precisar de lhe pedir uma coisa grande.
Sorrimos porque a distância entre a boa educação e o desastre pode ser muito curta.
E há coisas que, numa aldeia, se aprendem sem que ninguém precise de as ensinar.
Aprende-se onde cada família guarda as ferramentas.
Aprende-se quem tem cães. Aprende-se quem é covarde ou tem coragem, quem é corno ou mulherengo.
Aprende-se quem fala muito, pouco ou nada. Quem fala directamente, por meias palavras ou apenas por olhares e gestos.
E aprende-se, sobretudo, que por detrás de algumas portas há sempre qualquer coisa que não aparece nas fotografias.
Às vezes é apenas uma espingarda. Às vezes é uma pistola ou apenas um pau que não quebre na paulada.
Quase sempre é uma história. E enquanto os visitantes admiram a paisagem e a tipicidade das gentes, nós, os locais, continuamos a trocar bons-dias e a saudar quem passa.
Fingimos e sorrimos. É mais seguro assim. O que apetece dizer é melhor que se não diga ou, sem sim, apenas no pensamento.