O caso que envolveu o realizador português Ico Costa surge como um exemplo paradigmático dos perigos do "cancelamento" precipitado e da fragilidade da verdade na era digital. O que foi inicialmente apresentado como um movimento de denúncia legítimo no âmbito do "MeToo", revelou-se, afinal, uma construção fictícia: uma acusação de violência doméstica e assédio baseada não em factos, em provas, mas num email anónimo de uma mulher que, segundo as investigações, não existe, ou de um homem, convenientemente a fazer-se passar por tal.
Segundo algumas fontes, bastou uma denúncia sem rosto para que instituições como o festival IndieLisboa, sem meias medidas, sem presunção de inocência, sem contraditório, retirassem as obras do cineasta de competição, destruindo reputações e carreiras em poucas horas. Contudo, o ponto mais crítico desta análise não reside apenas na falsidade da acusação, mas na postura subsequente dos órgãos de comunicação social.
Apesar de tudo apontar para a inocência do realizador e a inexistência da(o) denunciante terem sido demonstradas, assiste-se agora a uma ausência de rectificação por parte dos grandes canais de informação. Aqueles que outrora amplificaram as suspeitas com rapidez e sensacionalismo, recusam-se hoje a repor a verdade com o mesmo vigor. Em vez de uma nota de esclarecimento ou de um pedido de desculpas público, o mínimo exigido, impera um silêncio vergonhoso. Este comportamento omisso e faccioso não só falha com o visado, mas compromete a integridade do jornalismo, que prefere o esquecimento à admissão do erro, deixando a mancha na reputação de um inocente por puras conveniências de narrativa.
Mas a gravidade da ligeireza de muita da nossa comunicação social não reside apenas neste caso. Fosse e estávamos bem. Mas não! Este é apenas mais um entre muitos. Já não terá redenção a nossa CS, antes perpetua-se no chiqueiro porque a investigação, os factos, a verdade e a isenção dão trabalho e exigem profissionalismo. A via mais fácil é a oposta.
20 Março 2026
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