28 março, 2026

Taras e manias

Com a divulgação de uma primeira leva da lista de empresas associadas à Spinumviva, e dizem que outras mais virão, aqueles que a reclamaram e adoram estas coisas como algo sumarento ou activador como o pau-de-cabinda, devem já estar a sentir palpitações e não tardam os orgasmos, literais ou visuais. 

Por mim, pessoa do género masculino, apraz-me muito mais a figura de uma bela mulher, mas, como taras e manias todos teremos, e já delas cantava o saudoso Marco Paulo, há quem vá às núvens só por ouvir falar na Ferpinta, Cofina, Solverde, a Grupel, Itau, etc, etc. Ouvir pronunciar Rádio Popular e CLIP - Colégio Luso Internacional do Porto, ui, ui, deve ser mesmo a cereja no topo do bolo. Se os sites de pornografia descobrem o filão, vão abrir uma nova categoria: Lista de empresas da Spinumviva.

Aprender até morrer!


Você não tem um pingo de vergonha

E todo homem sonha, ter alguém assim (lista de empresas)

Realizando minhas fantasias,

Taras e manias, você vem pra mim.

26 março, 2026

O paraíso é um inferno criminal

Não sou cliente de séries, mas mesmo assim com a atenção suficiente para ir vendo, a espaços, a série policial Death in Paradise. Talvez pela sua forma simples: Inspectores británicos, que se vão revezando, deslocados para uma suposta pequena ilha caribenha paradisíaca, um homicídio aparentemente impossível e uma explicação brilhante no final do episódio surgida de uma epifania do inspector. O cenário idílico, muito mar e praia e o tom leve contrastam com o crime central de cada história, criando um entretenimento ligeiro mas agradável porque sem os detalhes de violência gratuita que fazem parte do ADN de muitas outras séries ligadas ao crime. No entanto, quando se olha para a série com um mínimo de atenção estatística, não passa despercebido um detalhe curioso que revela um lado profundamente irrealista da narrativa. Mesmo cientes do lado ficcional, a coisa acaba por ficar estranha.

A acção decorre na ilha fictícia de Saint Marie, um território que, pela forma como é retratado, parece relativamente pequeno: há uma cidade principal, pequena e provincial, uma minúscula esquadra de polícia, tipo bungalow, e deslocações que raramente demoram muito tempo. Nada indica que se trate de uma grande ilha; pelo contrário, tudo sugere uma comunidade relativamente pequena, a viver da pesca e turismo, talvez com algo entre 30 000 e 50 000 habitantes, ou bem menos. O problema começa quando se considera o número de crimes que ali ocorrem.

A estrutura da série praticamente garante um homicídio por episódio. Ao longo de mais de uma década de emissões, a produção já ultrapassou a centena de episódios, o que significa que mais de cem homicídios ocorreram na mesma ilha. Mesmo fazendo uma estimativa conservadora, tipo cerca de 100 homicídios em aproximadamente 13 anos, obtemos uma média anual de cerca de sete ou oito mortes. Se assumirmos, por exagero, uma população de cerca de 40 000 habitantes, isso corresponde a uma taxa próxima de 19 homicídios por 100 000 habitantes por ano.

Para perceber o que isto significa, basta comparar com dados reais. Em países como Portugal ou o Reino Unido, os dados consultados indicam que a taxa de homicídio ronda geralmente um caso por 100 000 habitantes. Mesmo nos Estados Unidos, a média nacional situa-se normalmente entre seis e sete. Uma taxa perto de vinte aproxima-se da realidade de algumas das cidades mais violentas do mundo. Ou seja, se Saint Marie existisse realmente, a pequena ilha tropical apresentada como destino turístico encantador e pacífico, paradisíaco até, teria, na verdade, um nível de violência comparável ao de grandes metrópoles com graves problemas de criminalidade.

O mais curioso é que este fenómeno não resulta de qualquer intenção narrativa específica; é simplesmente uma consequência estrutural do formato da série. Um drama policial precisa de um crime em cada episódio, mas quando a história decorre repetida e confinadamente no mesmo espaço geográfico, claramente pequeno, o efeito acumulado torna-se estatisticamente absurdo. Dentro da lógica da ficção, tudo permanece harmonioso: praias tranquilas, música caribenha, turistas satisfeitos nas esplanadas a emborcarem rum e habitantes que parecem continuar a sua vida normalmente. Contudo, se a situação fosse real, é difícil imaginar que o turismo prosperasse ou que os residentes aceitassem viver num local com uma concentração tão extraordinária de homicídios.

Este pequeno exercício revela algo interessante sobre muitas séries televisivas: a coerência dramática funciona episódio a episódio, mas raramente resiste a uma análise mais global. O espectador aceita facilmente o cenário porque acompanha cada história isoladamente, sem pensar nas consequências acumuladas ao longo de anos. No caso de Saint Marie, talvez o verdadeiro mistério não seja descobrir quem cometeu o crime da semana, mas perceber como uma ilha aparentemente tranquila conseguiu tornar-se, sem que ninguém pareça notar, numa das capitais mundiais do homicídio.

Este irrealismo é extensível ou ampliado a outras séries. Por exemplo, Midsomer Murders, em que também confinada a uma região, os homicídios são mais que muitos. Por episódio são comuns três ou mais homicídios. Uma autêntica matança, que nem nas capitais mais violentas do mundo.

Costuma-se dizer que as séries procuram ser o reflexo da sociedade mas, na verdade, os exageros da ficção são bem maiores. Melhor é viver na realidade. 

25 março, 2026

Homem que mordeu um cão é vizinho do primo do Ventura

Porventura apenas eu vejo estas coisas, mas é frequente abrir um portal de notícias ou desfolhar um jornal, e encontrar títulos que, de algum modo, vinculam a conduta negativa de um determinado indivíduo, mesmo que não notória figura pública, à sua filiação ou proximidade partidária, ao seu clube de futebol ou até mesmo à empresa onde trabalha. Mas por que razão a esfera privada é tão frequentemente misturada com a identidade institucional, mesmo quando não existe uma relação directa entre o acto e a organização?

Não vou, de todo, com alguns dos princípios do Chega, e sobretudo com várias das suas principais figuras, mas parece-me que este partido está no topo dessa relação que frequentemente a imprensa, sobretudo a escrita, explora como uma velha casamenteira, como que a justificar a causalidade. Nas redes sociais estas situações são naturalmente usadas e ampliadas.

O debate reside na tendência mediática e social de colectivizar a culpa. Questiona-se por que actos isolados de cidadãos são utilizados para rotular instituições inteiras, transformando um incidente ou comportamento pessoal num julgamento de valor sobre uma marca, um partido ou uma associação.

A associação directa serve para transferir a rejeição gerada pelo acto individual para uma entidade maior. Ao mencionar o partido ou a empresa, a notícia deixa de ser sobre "uma pessoa" e passa a ser sobre "o tipo de pessoas que aquela instituição abriga", gerando um impacto emocional muito superior.

O público tende a aceitar informações que confirmam os seus preconceitos. Se um leitor já desconfia de um sector específico, ver um membro desse sector envolvido num escândalo reforça a sua visão de mundo, facilitando a viralização do conteúdo.

No jornalismo digital, nomes de instituições conhecidas funcionam como palavras-chave que aumentam o tráfego. Uma notícia ganha relevância pública e comercial quando é inserida num contexto de poder ou de rivalidade (como a política ou o desporto), em vez de ser tratada como um caso de polícia comum.

No jogo político e corporativo, a "culpa por associação" é uma ferramenta de retórica. O objetivo é forçar a instituição a gastar recursos e tempo a defender-se de algo que não controlou, minando a sua credibilidade perante a opinião pública.

Em resumo, embora o direito moderno separe a responsabilidade individual da colectiva, a "arena da opinião pública" opera sob regras diferentes. Cabe ao leitor desenvolver um filtro crítico, distinguindo actos e comportamentos que são fruto de uma cultura organizacional daqueles que são meramente incidentes da esfera privada, sem relação com as entidades mencionadas.

Nas redes sociais, até se pode perceber este comportamento porque por trás estão, de facto, interesses quem nem sempre se revelam, apenas pelos objectivos. Todavia, já quanto à comunicação social, supostamente feita de jornalistas e profissionais, este relacionamento de pessoas e seus comportamentos a entidades terceiras, nem sempre de ligação directa (e mesmo que fosse) é a todos os níveis lamentável, mesmo que já não nos surpreenda.

Assim se um tipo mordeu num cão, ou deu um tabefe à namorada bêbeda, ou surripiou de alguém o que não lhe pertencia, é logo notícia do género: "Homem que deu um pontapé numa galinha é deputado do Chega na Assembleia de Freguesia de Fragolães".  Ou então: "Homem que foi apanhado a conduzir com uma carraspana foi apanha-bolas no Clube Desportivo de Arreganhães", etc, etc.

Triste, mas fruta da época.

Birras e ameaças

Está na ordem do dia a polémica quanto à eleição de três lugares para juízes do Tribunal Constitucional. O caso está a gerar um impasse político, com o PSD a pretender indicar dois nomes e deixar um para o Chega, o que o PS recusa, ameaçando cortar o diálogo com o Governo. A controvérsia centra-se na distribuição dos lugares, com o PSD a procurar aprovar um nome do Chega, potencialmente com o apoio da IL.

Parece-me que esta situação é ridícula e custa a acreditar que para um órgão que se pretende isento e independente a toda a prova, a sua nomeação ainda dependa dos maiores partidos parlamentares. 

No presente caso, o PS parece não aceitar que em termos de mandatos já não é a segunda força política. Como tal, argumenta que as nomeações no passado tiveram um equilíbrio de esquerda / direita e como tal deve fazer parte. Como um menino a quem lhe tiram o doce, a malta do Carneiro faz birra e ameaça cortar o diálogo (seja lá o que isso for) e até chumbar o próximo Orçamento de Estado, goste, ou não, o Seguro.

Este é apenas mais um caso que conduz ao descrédito da nossa classe política, reiteradamente a colocar os interesses partidários acima dos que realmente interessam ao país e aos portugueses.

Por mim, de resto, o Tribunal Constitucional é apenas um sorvedouro de recursos financeiros. Bem que se poderia dispensar este órgão ou reduzir apenas a 3 juízes., Qualquer outro Tribunal bem que poderia desempanhar a mesma função. Afinal, é necessária tanta gente, muito bem paga e com regalias condizentes, para interpretar uma série de artigos que, no geral, até são compreendidos por um qualquer iletrado?  Pensem nisso!

24 março, 2026

Não cairam o Carmo nem a Trindade

No passado sábado, as ruas de Lisboa e do Porto, e de outras cidades, foram preenchidas por milhares de pessoas que, sob o lema "Sempre pela Vida", marcharam de forma pacífica e intergeracional. No entanto, o que deveria ter sido uma celebração do direito fundamental à existência foi manchado por um acto de violência extrema mesmo que aparentemente caso isolado: um atentado com um engenho incendiário (um "cocktail molotov") junto à Assembleia da República.

A Marcha pela Vida de 2026, essa não foi um evento isolado. Em Lisboa (onde a Marcha já se realiza há uma década), milhares de manifestantes percorreram o trajecto entre o Largo de Camões e o Parlamento, enquanto no Porto, no Terreiro da Sé, a mobilização uniu cidadãos em torno de uma causa comum. Mas decorreu em vários pontos do país. Como destacou a Federação Portuguesa pela Vida, o objectivo era claro: afirmar que "a vida não se mata, a vida trata-se", reforçando a oposição a leis que, no entender dos manifestantes, desvalorizam a condição humana, como a despenalização do aborto e a legalização da eutanásia.

A presença de jovens, famílias e crianças sublinhou o carácter cívico e ordeiro da iniciativa. Contudo, foi precisamente este ambiente de paz que foi visado pelo radicalismo.

O relatório das autoridades é inequívoco: o ataque em Lisboa foi perpetrado por um indivíduo de 39 anos, alegadamente associado a movimentos de conotação anarquista de esquerda. Estes grupos, já referenciados pelas forças de segurança, utilizam métodos rudimentares mas de elevado potencial destrutivo. O facto de o engenho não ter deflagrado ao atingir o solo foi o único detalhe que evitou uma tragédia de proporções graves, num local onde o líquido inflamável chegou a atingir alguns participantes.

Este acto não foi apenas uma agressão física; foi um atentado deliberado para usar o terror como ferramenta de silenciamento. Quando o extremismo sai das sombras para lançar fogo sobre famílias e crianças, a democracia enfrenta um teste de integridade que não pode ser ignorado.

Apesar da gravidade do caso, causa profunda estranheza, ou nem por isso, o tratamento dado a este caso como mero "incidente sem consequências" pelos principais blocos noticiosos. Embora a cobertura da Rádio Renascença e de outros órgãos tenha registado a dimensão da marcha, o atentado em si foi frequentemente relegado para segundo plano ou tratado com uma discrição que contrasta com a habitual atenção a manifestações da agenda wook. Fosse ao contrário, o mesmo atentado contra uma marcha de orgulho gay ou a favor do aborto, ui, ui. Cairiam o Carmo e a Trindade. O que não seria de berreiro mediático e palco para as habituais figuras defensoras das excentricidades. 

Esta desvalorização é perigosa. Ao não conferir ao atentado o peso que a sua gravidade exige, a comunicação social contribui para uma normalização da violência política, desde que esta seja dirigida a sectores cujas convicções divergem da narrativa cultural e da agenda wook que se quer normalizada.

Mais revelador do que a escassez de manchetes é o silêncio dos partidos da esquerda parlamentar. Estas forças políticas, que frequentemente se assumem como paladinas da integridade física e dos direitos fundamentais, optaram, no geral, pela ausência de uma condenação veemente. Pimenta no cuzinho dos outros...

A razão desta omissão parece residir numa profunda dissonância ideológica. Enquanto a Marcha pela Vida apela à protecção da existência humana desde a concepção até à morte natural, a agenda da esquerda tem priorizado a autonomia absoluta sobre a vida. O silêncio destes partidos perante o ataque sugere uma empatia selectiva: parece haver maior tolerância para com a violência quando as vítimas defendem princípios que a esquerda combate ativamente. É um paradoxo democrático que aqueles que legislam em nome do "progresso" se calem quando a integridade de quem defende a vida é ameaçada por engenhos explosivos. Não há lugar a aproximações, ao diálogo,ao respeito pelos lados, apenas à definição de barricadas. 

Tal como os caminhos da memória se perdem pela erosão, também o respeito pelo pluralismo parece estar a desaparecer sob a lama da intolerância. A Marcha pela Vida recordou-nos que a defesa da dignidade humana é uma causa que atravessa gerações. Este atentado deve servir de alerta: não podemos permitir que o silêncio político e mediático valide o uso do terror como ferramenta de debate.

A democracia exige que a condenação da violência seja absoluta e universal, independentemente de quem segura o cartaz ou de quem atira a chama.

23 março, 2026

Não nos façam de lorpas

No contexto das críticas à reforma de Mário Centeno, ex-governador do Banco de Portugal, sobretudo quanto aos critérios que escapam às regras a que qualquer trabalhador tuga se sujeita, desde logo a idade legal da reforma, nos últimos dias, e pela voz do actual chefe da instituição, Álvaro Santos Pereira, voltou a encenar-se a ideia de que a futura reforma de Mário Centeno não terá qualquer custo para os contribuintes. O argumento é simples: a pensão será paga por fundos próprios do Banco de Portugal e não directamente pelo Orçamento do Estado. Logo, conclui-se, os contribuintes não pagarão nada e que, pasme-se, despachar o sorridente ex-governado do BdP até representa um lucro para a instituição. Se assim for, é seguir o conselho e  despachar quanto antes toda aquela gente. O dinheiro que não poupará o país...

Mas esta conclusão, segundo especialistas, e até para um leigo como eu, resulta sobretudo de um truque de contabilidade e de uma definição muito estreita do que significa “custar aos contribuintes”. O facto de uma despesa não aparecer numa linha do orçamento não significa que não tenha um custo económico real. O Banco de Portugal não é uma entidade privada que gere recursos próprios desligados da economia. As suas receitas e a sua capacidade financeira resultam, em grande parte, da forma como funciona o sistema monetário do Eurosistema e do país.

Uma parte relevante dos resultados dos bancos centrais europeus tem origem nos activos que detêm, nomeadamente dívida pública adquirida ao abrigo de programas de política monetária. Esses activos foram comprados através de criação de moeda. Durante anos, esse processo gerou rendimentos significativos: os bancos centrais recebiam juros da dívida pública enquanto pagavam juros muito baixos sobre as reservas bancárias.

Esses rendimentos alimentam as reservas e provisões das instituições e é a partir desses recursos que podem ser financiadas despesas internas, incluindo pensões e benefícios de antigos responsáveis, como o Centeno, que agora, rapaz ainda abaixo dos 60, se prepara para a reforma. Gente feliz e com sorte; Eu, que principei a trabalhar antes dos 12 anos, dizem-me que tenho que aguentar até aos 67 e picos, caso não queira ser penalizado. Estudasses, pá, e fosses para governador!

Contudo, dizer que esse dinheiro “não custa nada” aos contribuintes ignora um ponto essencial e pretende fazer dos portugueses lorpas. A criação de moeda não é neutra para a economia. Ao aumentar a quantidade de dinheiro em circulação sem um aumento correspondente da produção, contribui para pressões inflaccionistas e para a erosão do poder de compra da moeda.

Em termos práticos, isso significa que o financiamento não desaparece: apenas se torna menos visível. Em vez de surgir sob a forma de imposto directo ou despesa orçamental, aparece diluído na perda de valor do dinheiro.

Por isso, afirmar que a reforma do super Mário não custa um cêntimo aos contribuintes pode ser tecnicamente defensável numa perspectiva estritamente contabilística. Mas do ponto de vista económico é, no mínimo, enganador. O custo existe. Apenas não aparece onde é mais fácil vê-lo. Em suma, é atirar areia para os olhos dos contribuintes esperando que estes passem por lorpas e acreditem na história da Carochinha e do João Ratão.

Usem mas não abusem!

20 março, 2026

O silêncio dos culpados

O caso que envolveu o realizador português Ico Costa surge como um exemplo paradigmático dos perigos do "cancelamento" precipitado e da fragilidade da verdade na era digital. O que foi inicialmente apresentado como um movimento de denúncia legítimo no âmbito do "MeToo", revelou-se, afinal, uma construção fictícia: uma acusação de violência doméstica e assédio baseada não em factos, em provas, mas num email anónimo de uma mulher que, segundo as investigações, não existe, ou de um homem, convenientemente a fazer-se passar por tal.

Segundo algumas fontes, bastou uma denúncia sem rosto para que instituições como o festival IndieLisboa, sem meias medidas, sem presunção de inocência, sem contraditório, retirassem as obras do cineasta de competição, destruindo reputações e carreiras em poucas horas. Contudo, o ponto mais crítico desta análise não reside apenas na falsidade da acusação, mas na postura subsequente dos órgãos de comunicação social.

Apesar de tudo apontar para a inocência do realizador e a inexistência da(o) denunciante terem sido demonstradas, assiste-se agora a uma ausência de rectificação por parte dos grandes canais de informação. Aqueles que outrora amplificaram as suspeitas com rapidez e sensacionalismo, recusam-se hoje a repor a verdade com o mesmo vigor. Em vez de uma nota de esclarecimento ou de um pedido de desculpas público, o mínimo exigido, impera um silêncio vergonhoso. Este comportamento omisso e faccioso não só falha com o visado, mas compromete a integridade do jornalismo, que prefere o esquecimento à admissão do erro, deixando a mancha na reputação de um inocente por puras conveniências de narrativa.

Mas a gravidade da ligeireza de muita da nossa comunicação social não reside apenas neste caso. Fosse e estávamos bem. Mas não! Este é apenas mais um entre muitos. Já não terá redenção a nossa CS, antes perpetua-se no chiqueiro porque a investigação, os factos, a verdade e a isenção dão trabalho e exigem profissionalismo. A via mais fácil é a oposta.

20 Março 2026

Carneiro, versão encarneirada

Considero José Luís Carneiro uma pessoa íntegra, educada e competente, perfil que já lhe reconhecia antes de assumir funções como Secretário-Geral do Partido Socialista. Não obstante, observo uma nítida mudança de postura, com uma aproximação progressiva à ala mais à esquerda do partido, assemelhando-se ao posicionamento radical de Pedro Nuno dos Santos.

O desafio das personalidades moderadas na política reside no facto de que, ao alcançarem lugares de poder e decisão, tornam-se dependentes de apoios internos. Frequentemente, vêem-se compelidas a alinhar-se com determinadas correntes sob pena de comprometerem a sua sobrevivência política. Também José Luís Carneiro dá todos os sinais de não conseguir livar-se dessa teia.

É lamentável, mas parece-me que este percurso repete a estratégia que conduziu o PS à condição de terceira força parlamentar. O eleitorado ditará o desfecho, talvez quando o presidente Seguro quiser, mesmo já tendo dito que não quer.

Se, por um lado, o Governo tem acumulado erros estratégicos, com alguns tiros nos pés, por outro, não se afigura que o PS, sob a liderança desta nova versão de Carneiro, represente uma boa alternativa e o retorno à normalidade, seja lá o que isso for. 

Neste contexto, agravado pelos efeitos das tempestades e das guerras, actualmente, tanto o PSD como o PS parecem estar a colocar-se a jeito. O grande-líder do basqueirismo, agradece.

19 março, 2026

Pressupostos e interpretações como factos

O recente debate mediático em torno de um discurso de Luís Montenegro no Conselho Nacional do PSD levanta uma questão central sobre a prática do jornalismo baseado em factos. No seu discurso, Montenegro afirmou que quem dentro do partido defendesse “um caminho alternativo e diferente” deveria apresentar-se a eleições directas em Maio. No entanto, em momento algum mencionou explicitamente Pedro Passos Coelho. Apesar disso, vários órgãos de comunicação social optaram por titular as notícias como se Montenegro tivesse desafiado directamente o ex-primeiro-ministro, transformando uma interpretação política em afirmação factual, de resto muito na linha da nossa pobre comunicação social, sem pinta de rigor jornalístico, respeito deontológico ou de vergonha.

É verdade que o contexto político, marcado por intervenções críticas recentes de Passos Coelho, permite ler o discurso como uma resposta indirecta. Essa interpretação é legítima e faz parte do trabalho jornalístico de contextualização. O problema surge quando essa inferência passa a ser apresentada no título como se fosse uma declaração literal. Nesses casos, a fronteira entre facto e interpretação torna-se difusa e o leitor recebe uma versão simplificada e já interpretada do acontecimento. Ou seja, informa-se com intuito de fazer de um pressuposto uma verdade factual. E neste erro, que não é inocente mas premeditado, alinham tanto os sensacionalistas Correio da Manhã como outros títulos que se encobrem na capa de jornalismo sério.

Em contraste, a abordagem da Agência Lusa, exemplo único, destacou-se por relatar exactamente o que foi dito: Montenegro desafiou quem dentro do PSD defendesse um rumo alternativo a apresentar-se a eleições. Ao fazê-lo, manteve a distinção entre a declaração do político e o contexto político que a rodeia, permitindo que o leitor forme a sua própria interpretação.

Este episódio mostra como pequenas escolhas editoriais, sobretudo nos títulos, podem influenciar significativamente a percepção pública dos acontecimentos. Num ambiente mediático cada vez mais competitivo e orientado para captar atenção, a tentação de simplificar ou dramatizar o conflito político é grande. Ainda assim, o princípio fundamental do jornalismo baseado em factos continua a ser claro: relatar o que foi efetivamente dito e separar isso das interpretações possíveis. Mas o normal, é criar notícias com base em meros pressupostos e interpretações e depois cavalgar nas reacções.

No fundo, não se trata de impedir a análise ou a contextualização, mas de garantir que o público distingue claramente entre factos e leituras políticas. Quando essa distinção se perde, o jornalismo deixa de apresentar a realidade e passa a oferecer ao leitor uma narrativa já pronta, algo que pode tornar o debate público mais imediato, mas também menos rigoroso. 

Este caso em particular é apenas um dos muitos que vão enxameando a nossa abandalhada comunicação social. O rigor já não vende, antes o pressuposto, o alarmismo, o falso, o descontextualizado. 

RTP Colo do Pito - Drones e mísseis

Os jornalistas da RTP estão contra a uniformização das marcas ligadas ao serviço público de rádio e televisão. É mais de uma dezena de marcas e sempre foi assim: Dividir para reinar. 

Logo, ligada ao funcionalismo público, a classe junta-se para denunciar o processo. 

É legítimo que defendam os seus interesses profissionais e vejam virtudes onde mais ninguém as vê sob um ponto de vista de gestão de meios e recursos financeiros, mas daí os jornalistas considerarem a coisa como um ataque à independência e à democracia é francamente exagerado. Será dos efeitos das guerras que grassam pelo mundo, onde a toda a hora é drones e míssseis a matar e a destruir.

Ataque à democracia? Sinceramente! Esta gente do funcionalismo público vê ataques à democracia em tudo o que se mexe na sua direcção com perigo de afectar as suas regalias e poderes instalados. Aqui del-rei!

Talvez criando outra marca, a  RTP Colo do Pito ou a Antena 4, se consolidem as conquistas de Abril. Talvez!

Taras e manias

Com a divulgação de uma primeira leva da lista de empresas associadas à Spinumviva, e dizem que outras mais virão, aqueles que a reclamaram ...

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