26 março, 2026

O paraíso é um inferno criminal

Não sou cliente de séries, mas mesmo assim com a atenção suficiente para ir vendo, a espaços, a série policial Death in Paradise. Talvez pela sua forma simples: Inspectores británicos, que se vão revezando, deslocados para uma suposta pequena ilha caribenha paradisíaca, um homicídio aparentemente impossível e uma explicação brilhante no final do episódio surgida de uma epifania do inspector. O cenário idílico, muito mar e praia e o tom leve contrastam com o crime central de cada história, criando um entretenimento ligeiro mas agradável porque sem os detalhes de violência gratuita que fazem parte do ADN de muitas outras séries ligadas ao crime. No entanto, quando se olha para a série com um mínimo de atenção estatística, não passa despercebido um detalhe curioso que revela um lado profundamente irrealista da narrativa. Mesmo cientes do lado ficcional, a coisa acaba por ficar estranha.

A acção decorre na ilha fictícia de Saint Marie, um território que, pela forma como é retratado, parece relativamente pequeno: há uma cidade principal, pequena e provincial, uma minúscula esquadra de polícia, tipo bungalow, e deslocações que raramente demoram muito tempo. Nada indica que se trate de uma grande ilha; pelo contrário, tudo sugere uma comunidade relativamente pequena, a viver da pesca e turismo, talvez com algo entre 30 000 e 50 000 habitantes, ou bem menos. O problema começa quando se considera o número de crimes que ali ocorrem.

A estrutura da série praticamente garante um homicídio por episódio. Ao longo de mais de uma década de emissões, a produção já ultrapassou a centena de episódios, o que significa que mais de cem homicídios ocorreram na mesma ilha. Mesmo fazendo uma estimativa conservadora, tipo cerca de 100 homicídios em aproximadamente 13 anos, obtemos uma média anual de cerca de sete ou oito mortes. Se assumirmos, por exagero, uma população de cerca de 40 000 habitantes, isso corresponde a uma taxa próxima de 19 homicídios por 100 000 habitantes por ano.

Para perceber o que isto significa, basta comparar com dados reais. Em países como Portugal ou o Reino Unido, os dados consultados indicam que a taxa de homicídio ronda geralmente um caso por 100 000 habitantes. Mesmo nos Estados Unidos, a média nacional situa-se normalmente entre seis e sete. Uma taxa perto de vinte aproxima-se da realidade de algumas das cidades mais violentas do mundo. Ou seja, se Saint Marie existisse realmente, a pequena ilha tropical apresentada como destino turístico encantador e pacífico, paradisíaco até, teria, na verdade, um nível de violência comparável ao de grandes metrópoles com graves problemas de criminalidade.

O mais curioso é que este fenómeno não resulta de qualquer intenção narrativa específica; é simplesmente uma consequência estrutural do formato da série. Um drama policial precisa de um crime em cada episódio, mas quando a história decorre repetida e confinadamente no mesmo espaço geográfico, claramente pequeno, o efeito acumulado torna-se estatisticamente absurdo. Dentro da lógica da ficção, tudo permanece harmonioso: praias tranquilas, música caribenha, turistas satisfeitos nas esplanadas a emborcarem rum e habitantes que parecem continuar a sua vida normalmente. Contudo, se a situação fosse real, é difícil imaginar que o turismo prosperasse ou que os residentes aceitassem viver num local com uma concentração tão extraordinária de homicídios.

Este pequeno exercício revela algo interessante sobre muitas séries televisivas: a coerência dramática funciona episódio a episódio, mas raramente resiste a uma análise mais global. O espectador aceita facilmente o cenário porque acompanha cada história isoladamente, sem pensar nas consequências acumuladas ao longo de anos. No caso de Saint Marie, talvez o verdadeiro mistério não seja descobrir quem cometeu o crime da semana, mas perceber como uma ilha aparentemente tranquila conseguiu tornar-se, sem que ninguém pareça notar, numa das capitais mundiais do homicídio.

Este irrealismo é extensível ou ampliado a outras séries. Por exemplo, Midsomer Murders, em que também confinada a uma região, os homicídios são mais que muitos. Por episódio são comuns três ou mais homicídios. Uma autêntica matança, que nem nas capitais mais violentas do mundo.

Costuma-se dizer que as séries procuram ser o reflexo da sociedade mas, na verdade, os exageros da ficção são bem maiores. Melhor é viver na realidade. 

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