25 março, 2026

Homem que mordeu um cão é vizinho do primo do Ventura

Porventura apenas eu vejo estas coisas, mas é frequente abrir um portal de notícias ou desfolhar um jornal, e encontrar títulos que, de algum modo, vinculam a conduta negativa de um determinado indivíduo, mesmo que não notória figura pública, à sua filiação ou proximidade partidária, ao seu clube de futebol ou até mesmo à empresa onde trabalha. Mas por que razão a esfera privada é tão frequentemente misturada com a identidade institucional, mesmo quando não existe uma relação directa entre o acto e a organização?

Não vou, de todo, com alguns dos princípios do Chega, e sobretudo com várias das suas principais figuras, mas parece-me que este partido está no topo dessa relação que frequentemente a imprensa, sobretudo a escrita, explora como uma velha casamenteira, como que a justificar a causalidade. Nas redes sociais estas situações são naturalmente usadas e ampliadas.

O debate reside na tendência mediática e social de colectivizar a culpa. Questiona-se por que actos isolados de cidadãos são utilizados para rotular instituições inteiras, transformando um incidente ou comportamento pessoal num julgamento de valor sobre uma marca, um partido ou uma associação.

A associação directa serve para transferir a rejeição gerada pelo acto individual para uma entidade maior. Ao mencionar o partido ou a empresa, a notícia deixa de ser sobre "uma pessoa" e passa a ser sobre "o tipo de pessoas que aquela instituição abriga", gerando um impacto emocional muito superior.

O público tende a aceitar informações que confirmam os seus preconceitos. Se um leitor já desconfia de um sector específico, ver um membro desse sector envolvido num escândalo reforça a sua visão de mundo, facilitando a viralização do conteúdo.

No jornalismo digital, nomes de instituições conhecidas funcionam como palavras-chave que aumentam o tráfego. Uma notícia ganha relevância pública e comercial quando é inserida num contexto de poder ou de rivalidade (como a política ou o desporto), em vez de ser tratada como um caso de polícia comum.

No jogo político e corporativo, a "culpa por associação" é uma ferramenta de retórica. O objetivo é forçar a instituição a gastar recursos e tempo a defender-se de algo que não controlou, minando a sua credibilidade perante a opinião pública.

Em resumo, embora o direito moderno separe a responsabilidade individual da colectiva, a "arena da opinião pública" opera sob regras diferentes. Cabe ao leitor desenvolver um filtro crítico, distinguindo actos e comportamentos que são fruto de uma cultura organizacional daqueles que são meramente incidentes da esfera privada, sem relação com as entidades mencionadas.

Nas redes sociais, até se pode perceber este comportamento porque por trás estão, de facto, interesses quem nem sempre se revelam, apenas pelos objectivos. Todavia, já quanto à comunicação social, supostamente feita de jornalistas e profissionais, este relacionamento de pessoas e seus comportamentos a entidades terceiras, nem sempre de ligação directa (e mesmo que fosse) é a todos os níveis lamentável, mesmo que já não nos surpreenda.

Assim se um tipo mordeu num cão, ou deu um tabefe à namorada bêbeda, ou surripiou de alguém o que não lhe pertencia, é logo notícia do género: "Homem que deu um pontapé numa galinha é deputado do Chega na Assembleia de Freguesia de Fragolães".  Ou então: "Homem que foi apanhado a conduzir com uma carraspana foi apanha-bolas no Clube Desportivo de Arreganhães", etc, etc.

Triste, mas fruta da época.

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