O recente debate mediático em torno de um discurso de Luís Montenegro no Conselho Nacional do PSD levanta uma questão central sobre a prática do jornalismo baseado em factos. No seu discurso, Montenegro afirmou que quem dentro do partido defendesse “um caminho alternativo e diferente” deveria apresentar-se a eleições directas em Maio. No entanto, em momento algum mencionou explicitamente Pedro Passos Coelho. Apesar disso, vários órgãos de comunicação social optaram por titular as notícias como se Montenegro tivesse desafiado directamente o ex-primeiro-ministro, transformando uma interpretação política em afirmação factual, de resto muito na linha da nossa pobre comunicação social, sem pinta de rigor jornalístico, respeito deontológico ou de vergonha.
É verdade que o contexto político, marcado por intervenções críticas recentes de Passos Coelho, permite ler o discurso como uma resposta indirecta. Essa interpretação é legítima e faz parte do trabalho jornalístico de contextualização. O problema surge quando essa inferência passa a ser apresentada no título como se fosse uma declaração literal. Nesses casos, a fronteira entre facto e interpretação torna-se difusa e o leitor recebe uma versão simplificada e já interpretada do acontecimento. Ou seja, informa-se com intuito de fazer de um pressuposto uma verdade factual. E neste erro, que não é inocente mas premeditado, alinham tanto os sensacionalistas Correio da Manhã como outros títulos que se encobrem na capa de jornalismo sério.
Em contraste, a abordagem da Agência Lusa, exemplo único, destacou-se por relatar exactamente o que foi dito: Montenegro desafiou quem dentro do PSD defendesse um rumo alternativo a apresentar-se a eleições. Ao fazê-lo, manteve a distinção entre a declaração do político e o contexto político que a rodeia, permitindo que o leitor forme a sua própria interpretação.
Este episódio mostra como pequenas escolhas editoriais, sobretudo nos títulos, podem influenciar significativamente a percepção pública dos acontecimentos. Num ambiente mediático cada vez mais competitivo e orientado para captar atenção, a tentação de simplificar ou dramatizar o conflito político é grande. Ainda assim, o princípio fundamental do jornalismo baseado em factos continua a ser claro: relatar o que foi efetivamente dito e separar isso das interpretações possíveis. Mas o normal, é criar notícias com base em meros pressupostos e interpretações e depois cavalgar nas reacções.
No fundo, não se trata de impedir a análise ou a contextualização, mas de garantir que o público distingue claramente entre factos e leituras políticas. Quando essa distinção se perde, o jornalismo deixa de apresentar a realidade e passa a oferecer ao leitor uma narrativa já pronta, algo que pode tornar o debate público mais imediato, mas também menos rigoroso.
Este caso em particular é apenas um dos muitos que vão enxameando a nossa abandalhada comunicação social. O rigor já não vende, antes o pressuposto, o alarmismo, o falso, o descontextualizado.
Boa noite caríssimo,
ResponderEliminarPor tudo o que aqui escreve é que faz anos que não vejo televisão nem compro jornais. Uma mentira dita muitas vezes passa a ser verdade.
É o jornalismo de agora. Por isso há jornais a crescer e outros a morrer, como é a visão.
Gosto do seu espaço. Entretanto já me despedi do sapal e estou aqui também.
Abraço.
Caro José, obrigado por passar por cá. De facto, é como diz. A nossa imprensa, com raras excepções, vai muito mal. Já poucos acreditam, como na história do Pedro e o Lobo. Mas para alguns desses órgãos, é para o lado que melhor dormem.
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