03 julho, 2026

O país está a arder - Mas há bola!

O país está a arder, mas não pela vaga de calor. Arderia de qualquer forma, por rotina, por inércia, porque o trágico entre nós se tornou previsível e aceitável.

Contudo, o que realmente acontece ao país parece não interessar ao próprio país. A prioridade colectiva é encher praças para venerar o futebol e abdicar das horas de sono necessárias a quem trabalha. Dava imenso jeito que os profissionais das greves tivessem agendado uma geral para hoje; o alinhamento  seria perfeito. Sendo sexta-feira, o povo agradeceria o privilégio de dormir até mais tarde, recuperando da vigília nocturna dedicada a assistir a vinte e dois milionários a pontapear uma bola. Sem a greve, resta-lhes arrastarem-se pelo dia fora, bocejando e passando pelas brasas no posto de trabalho.

Entretida com o circo mediático, a pátria divide-se em discussões existenciais sobre Cristiano Ronaldo e o seu lacaio espanhol, ignorando olimpicamente o colapso na Venezuela ou a barbárie na Ucrânia. Ocasionalmente, comovem-se com o resgate milagroso de uma vida humana sob os escombros, uma novidade jornalística que serve para anestesiar a consciência, enquanto se normaliza a morte diária de milhares de pessoas, invasores e invadidos, num conflito que já dura há anos e que à falta de alvos militares apontam-se as miras para os residenciais.

Tudo é relativo, e a máxima de que "pimenta no cu dos outros é refresco" continua a ser o nosso farol moral. Os próximos dias seguirão o guião habitual: o território a arder, a Ucrânia a sangrar, a Venezuela a sufocar no esquecimento e, acima de tudo isto, o que verdadeiramente importa: a Seleção Nacional continua em prova, preparando-se para medir forças com os espanhóis. 

Resta saber se o país regressará à normalidade dos pés assentes na terra ou se continuará levitado, anestesiado e feliz, a flutuar atrás da bola, até à final.

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