A propósito de uma parte de comentário de alguém num certo blog:
"...O meu maior receio (que vem das minhas constatações diárias do que as pessoas dizem e do que as pessoas fazem) é que na verdade a maioria das pessoas aqui não merece uma coisa melhor porque pensam por chavões que repetem e defendem coisas erradas. O que não é estranho porque a primeira coisa que o 25/4 fez foi começar a destruir o sistema de ensino, sempre com resultados piores que ninguém questiona porque no fundo o Ensino é o verdadeiro bastião comunista e anti-ocidental não sendo por acaso que quem manda nas Escola é a CGTP e todas as escolas estão organizadas em torno dos interesses de uma classe e não do ensino em si."
Porque, no essencial, concordo, e pegando no assunto, considero que a influência do sindicalismo de matriz ideológica no sistema de ensino português, particularmente através das federações ligadas à CGTP, constitui um dos factores mais determinantes e controversos da política educativa contemporânea. Desde a ruptura institucional de 1974, verificou-se uma transição de um modelo de ensino rígido e elitista para um sistema massificado que, contudo, permitiu a consolidação de estruturas sindicais com uma capacidade de intervenção política sem paralelo em outros sectores da administração pública. Esta presença constante traduz-se frequentemente numa organização escolar que parece privilegiar os interesses corporativos e as agendas laborais de uma classe em detrimento da estabilidade pedagógica e da eficácia do próprio ensino. Para avaliar a influência do sindicalismo sobre o nosso sistema escolar público basta considerar que Mário Nogueira esteve 18 anos, quase duas décadas, à frente da FENPROF, numa militância ideológica que revela muito sobre as amarras do sindicalismo aos condicionalismos do ensino.
O recurso sistemático a greves e paralisações por parte destes sindicatos de esquerda tem imposto um clima de instabilidade recorrente nas escolas públicas, cujas consequências se reflectem directamente no aproveitamento escolar dos alunos. Ao interromper o fluxo curricular de forma intermitente, estas acções sindicais acabam por aprofundar as assimetrias sociais, uma vez que as famílias com maiores recursos encontram no ensino privado uma alternativa imune a este tipo de bloqueios. Esta realidade sustenta a crítica de que o ensino público se transformou num reduto ideológico e num bastião de resistência a reformas que visem a modernização ou a introdução de critérios de mérito e competitividade.
Desta forma, a percepcção de que as escolas estão organizadas em torno de uma agenda anti-ocidental ou puramente sindical ganha força quando se observa a dificuldade em implementar mudanças estruturais que não passem pelo crivo das federações dominantes. Enquanto o sistema permanecer condicionado por esta dinâmica de confronto permanente e por uma visão ideológica datada, a missão primordial da escola, que deveria ser a transmissão de conhecimento e a preparação de excelência para os desafios globais, continuará a ser secundarizada em favor de uma luta política que mantém o ensino português num estado de estagnação preocupante e que só quem ignora os sinais e mesmo os índices é que pode pensar o contrário.
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