No passado sábado, as ruas de Lisboa e do Porto, e de outras cidades, foram preenchidas por milhares de pessoas que, sob o lema "Sempre pela Vida", marcharam de forma pacífica e intergeracional. No entanto, o que deveria ter sido uma celebração do direito fundamental à existência foi manchado por um acto de violência extrema mesmo que aparentemente caso isolado: um atentado com um engenho incendiário (um "cocktail molotov") junto à Assembleia da República.
A Marcha pela Vida de 2026, essa não foi um evento isolado. Em Lisboa (onde a Marcha já se realiza há uma década), milhares de manifestantes percorreram o trajecto entre o Largo de Camões e o Parlamento, enquanto no Porto, no Terreiro da Sé, a mobilização uniu cidadãos em torno de uma causa comum. Mas decorreu em vários pontos do país. Como destacou a Federação Portuguesa pela Vida, o objectivo era claro: afirmar que "a vida não se mata, a vida trata-se", reforçando a oposição a leis que, no entender dos manifestantes, desvalorizam a condição humana, como a despenalização do aborto e a legalização da eutanásia.
A presença de jovens, famílias e crianças sublinhou o carácter cívico e ordeiro da iniciativa. Contudo, foi precisamente este ambiente de paz que foi visado pelo radicalismo.
O relatório das autoridades é inequívoco: o ataque em Lisboa foi perpetrado por um indivíduo de 39 anos, alegadamente associado a movimentos de conotação anarquista de esquerda. Estes grupos, já referenciados pelas forças de segurança, utilizam métodos rudimentares mas de elevado potencial destrutivo. O facto de o engenho não ter deflagrado ao atingir o solo foi o único detalhe que evitou uma tragédia de proporções graves, num local onde o líquido inflamável chegou a atingir alguns participantes.
Este acto não foi apenas uma agressão física; foi um atentado deliberado para usar o terror como ferramenta de silenciamento. Quando o extremismo sai das sombras para lançar fogo sobre famílias e crianças, a democracia enfrenta um teste de integridade que não pode ser ignorado.
Apesar da gravidade do caso, causa profunda estranheza, ou nem por isso, o tratamento dado a este caso como mero "incidente sem consequências" pelos principais blocos noticiosos. Embora a cobertura da Rádio Renascença e de outros órgãos tenha registado a dimensão da marcha, o atentado em si foi frequentemente relegado para segundo plano ou tratado com uma discrição que contrasta com a habitual atenção a manifestações da agenda wook. Fosse ao contrário, o mesmo atentado contra uma marcha de orgulho gay ou a favor do aborto, ui, ui. Cairiam o Carmo e a Trindade. O que não seria de berreiro mediático e palco para as habituais figuras defensoras das excentricidades.
Esta desvalorização é perigosa. Ao não conferir ao atentado o peso que a sua gravidade exige, a comunicação social contribui para uma normalização da violência política, desde que esta seja dirigida a sectores cujas convicções divergem da narrativa cultural e da agenda wook que se quer normalizada.
Mais revelador do que a escassez de manchetes é o silêncio dos partidos da esquerda parlamentar. Estas forças políticas, que frequentemente se assumem como paladinas da integridade física e dos direitos fundamentais, optaram, no geral, pela ausência de uma condenação veemente. Pimenta no cuzinho dos outros...
A razão desta omissão parece residir numa profunda dissonância ideológica. Enquanto a Marcha pela Vida apela à protecção da existência humana desde a concepção até à morte natural, a agenda da esquerda tem priorizado a autonomia absoluta sobre a vida. O silêncio destes partidos perante o ataque sugere uma empatia selectiva: parece haver maior tolerância para com a violência quando as vítimas defendem princípios que a esquerda combate ativamente. É um paradoxo democrático que aqueles que legislam em nome do "progresso" se calem quando a integridade de quem defende a vida é ameaçada por engenhos explosivos. Não há lugar a aproximações, ao diálogo,ao respeito pelos lados, apenas à definição de barricadas.
Tal como os caminhos da memória se perdem pela erosão, também o respeito pelo pluralismo parece estar a desaparecer sob a lama da intolerância. A Marcha pela Vida recordou-nos que a defesa da dignidade humana é uma causa que atravessa gerações. Este atentado deve servir de alerta: não podemos permitir que o silêncio político e mediático valide o uso do terror como ferramenta de debate.
A democracia exige que a condenação da violência seja absoluta e universal, independentemente de quem segura o cartaz ou de quem atira a chama.

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