19 julho, 2026

Exagerar o exagero

Os tempos são de exageros. As narrativas procuram servir propósitos que não os essenciais. Parece estar assente a crença de que quem mais berra mais razão terá e de que uma mentira repetida até à exaustão acaba por se tornar uma verdade absoluta, mesmo quando está repleta de segundas e terceiras intenções, umas duvidosas, outras claramente falaciosas.

Ainda agora, com a questão das trapalhadas dos exames escolares, que de facto existiram, a tónica tem sido a do exagero extremo. Políticos de toda a oposição, que não largam o osso e insistem em mexer na ferida para que esta nunca cicatrize e haja sempre sangue fresco - coisa de moscas e vermes - , mas também, com igual ênfase, a comunicação social, parte da classe docente do ensino público, que naturalmente não aprecia que mexam no status quo nem em processos ou reformas que, de algum modo, lhes retirem protagonismo ou capacidade reivindicativa e por arrasto os sindicatos e sindicalistas.

De todos se têm ouvido expressões como "angústia", "desconfiança", "desespero", "caos", "insegurança", etc., todas elas contribuindo para um ambiente de alarme, como se o mundo estivesse a colapsar e os estudantes e respectivas famílias vissem comprometida a projecção das suas vidas e vidinhas. Logo à cabeça surge o planeamento das férias, coisa importante, pelo menos para mim, que a questão resume-se a saber quantas tardes irei passar na praia mais próxima de casa.

Adiante. Não quero com isto dizer que o assunto não seja sério nem que as preocupações dos alunos e dos pais não sejam legítimas. Mas eu, já dispensado da educação escolar dos filhos, estou-me metaforicamente a cagar para a questão. O que me surpreende é este estado colectivo de alarmismo e a pintura de um cenário totalmente negro, sem um único lampejo de cor.

Se querem realmente preocupar-se - desde logo a comunicação social - com verdadeiras e fundadas causas de "angústia", "desconfiança", "desespero", "caos" e "insegurança", então deem atenção aos milhares de doentes que aguardam consultas, exames, cirurgias e tratamentos; a quem espera horas por uma simples consulta; a quem vê exames e cirurgias adiados mês após mês. Isto sim, são verdadeiros casos de vida ou de morte.

Face a estes problemas, reais e graves, que não são de agora nem deste Governo, a questão das trapalhadas dos exames e dos adiamentos por dois ou três dias, ou mesmo de uma ou duas semanas, parece irrisória, quase ridícula.

Por conseguinte, não vai acontecer, mas seria desejável que a classe política e a comunicação social fossem mais sérias e menos alarmistas, tratando cada assunto com o devido peso e proporção. Mas, como disse, não vai acontecer porque a seriedade, ética e deontologia são valores que já  não preocupam a classe. Os políticos, esses alinham e lançam gasolina para a fogueira do alarmismo. Uns e outros (des)afinam pelo mesmo diapasão para que a orquestra pareça mais desafinada do que é. É a música que querem que ouçamos.

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