01 setembro, 2026

O meu é maior que o teu

Todos os anos, em Agosto, as atenções do norte de Portugal dividem-se entre duas freguesias: Torno, no concelho de Lousada, e na localidade de Alvites, Vila de Mouçós, em Vila Real. Ambas transformam a celebração religiosa num palco para erguer andores, estruturas monumentais em madeira, flores e talha que desafiam a gravidade e a própria física. Mas, por trás de toneladas de peso carregadas aos ombros de dezenas de homens, surge uma questão inevitável: até que ponto estas obras representam devoção religiosa, e onde começa a ostentação comunitária?

Para compreender o fenómeno, basta olhar para os números. De um lado, a Senhora da Aparecida (Lousada) ostenta o título reconhecido pelo Guinness World Records, com estruturas que ultrapassam os 22 metros de altura. Do outro, a Senhora da Pena (Mouçós) exibe um andor colossal que pode atingir as 4,4 toneladas e mobilizar mais de uma centena de carregadores num único esforço humano. Apesar do reconhecimento ao andor de Lousada, os de Mouções (está no cartaz) referem-se ao mesmo como "o maior andor do mundo carregado por força humana". Qual o significado, aqui, de maior? Mais alto, mais pesado, mais largo, mais comprido?

A grandiosidade visual é inegável, mas a motivação por trás da construção destas estruturas ultrapassa os limites do manual de liturgia católica. Creio até, que ambas as senhoras (que são a mesma), dessem o seu consentimento a esta desproporcionalidade. O Evangelho ensina-nos que a mãe de Jesus era tudo menos espalhafatosa. Cultivava a humildade e o recato, tudo ao contrário do que estes andores apreentam. Creio que prefere um andor de pequenas dimensões e desprovido de vaidades e ostentações. Há quem diga que é fé, mas em muito será mais uma fezada.

A tradição das romarias portuguesas sempre integrou uma dimensão profana ao lado do sagrado. Contudo, no caso destas duas localidades, a competição tomou proporções desmesuaradas. A necessidade de superar o rival da região vizinha ou de figurar nos livros de recordes ou cativar mais forasteiros a assistir, revela um traço profundamente humano: a vaidade colectiva.

O estatuto da freguesia, o orgulho local e a afirmação de superioridade territorial encontram no andor a sua expressão máxima. O altar itinerante deixa de ser apenas um meio para elevar a imagem e passa a ser um troféu comunitário. A ostentação surge vestida de rendas e flores, financiada por doações que visam garantir que o andor deste ano "seja ainda maior do que o do ano passado". A ambição de se acrescentar mais uns centímetros ou quilos é patente.

Os defensores da tradição podem argumentar que o sacrifício dos carregadores é uma prova de fé e devoção. Enfrentar temperaturas elevadas e suportar dezenas de quilos sobre os ombros durante horas é, para muitos, o pagamento de promessas severas ou um acto de penitência.

No entanto, a linha que separa o sacrifício devocional do espectáculo de força é ténue. A mobilização dos homens da terra assume frequentemente o carácter de uma demonstração de virilidade e coesão social, onde o sofrimento físico serve também para validar o feito perante a multidão de espectadores que filma e se surpreende com o cortejo.

Não se pode anular a autenticidade da fé individual de quem participa, seja a construir, a pagar ou a carregar o andor. Todavia, é impossível ignorar que a rivalidade entre Lousada e Vila Real, ou mesmo entre outras localidades, transformou a procissão num palco de rivalidade mediática e sociológica.

Transportar uma estrutura de mais de uma tonelada com mais de 20 metros de altura, onde o centro de gravidade é extremamente elevado, reduz a margem de erro a zero. Qualquer desequilíbrio de um dos homens na base pode ser fatal.

Não surpreende, pois, que um dia a coisa venha a baixo com estrondo e consequências. De resto, em Lousada já aconteceu no dia 14 de agosto de 2017, durante a procissão em honra de Nossa Senhora da Aparecida. Na altura, a estrutura monumental de cerca de 22 metros de altura perdeu o equilíbrio no momento em que era transportada, acabando por tombar sobre a multidão e contra o telhado de um edifício próximo. O acidente causou ferimentos em quatro pessoas, gerando momentos de grande pânico e obrigando à interrupção da procissão. Podia ter consequências bem mais graves. Em todo o caso, foi um momento que pôs a descoberto o ridículo de tal desmesuramento.

Apesar da gravidade da queda e do risco real de perda de vidas humanas, a tradição manteve-se nos anos seguintes, embora, supostamente, sob maior escrutínio e preocupação com as condições de equilíbrio do andor.

A celebração dos maiores andores do mundo continua a ser um retrato fascinante da cultura popular portuguesa — um ponto de encontro onde o sagrado e o profano, a fé sincera e a vaidade comunitária, se cruzam sob o mesmo peso de madeira e tradição.

Que Nossa Senhora lhes perdoe!

O meu é maior que o teu

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