Valorizo imenso os festivais de música. É genuíno! Não pelo motivo que a maioria possa pensar, claro. Mesmo que me oferecessem um passe VIP com direito a hotel de cinco estrelas e comes-e-bebes à borlix, continuaria a recusar misturar-me com a manada no meio do pó e da confusão. O meu interesse é puramente sociológico: encaro os festivais como um fiável indicador da qualidade de vida dos portugueses.
De facto, muito mais do que os relatórios cinzentos do INE, eventos como o Rock in Rio e congéneres mostram-nos a verdadeira face da nação: um país radiante, devoto da farra, onde toda a gente vive desafogadamente. Ali, naquelas molduras humanas, evaporam-se num passe de mágica os problemas do desemprego, as crises da habitação (sejam rendas caras ou baratas) e as dificuldades em pagar as propinas. Aparentemente, os inconvenientes da inflação e os preços dos combustíveis são meros mitos urbanos.
Ou seja, ao olhar para aqueles milhares de devotos consumidores, percebe-se imediatamente que o país afinal respira saúde financeira. Toda aquela choradeira habitual sobre o custo de vida, os empregos precários e os salários de miséria não passa de farsa, pura encenação e a prova provada de que "quem não chora, não mama". Portugal está, de facto, uma maravilha e recomenda-se. Posto isto, acho que devia haver mais festivais; afinal, o que não falta por aí é gente abastada para encher os recintos.
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