23 outubro, 2026

Palavras incómodas

A propósito da indignação de muitas "florzinhas de cheiro" às palavras certeiras do  presidente do IHRU, Benjamim Pereira, pessoalmente, também concordo que o homem (que não conheço) disse uma verdade elementar. Mas, de facto, vivemos num tempo em que não se podem dizer certas verdades. Com tantas florzinhas de cheiro, para não ferir suscetibilidades tudo tem de ser medido. Não podemos dizer "merda", pelo que cai melhor — salvo seja — dizer "biorresíduos de rejeição gastrointestinal". Importam os eufemismos.

Quanto ao resto, é evidente que é sempre errado e até injusto generalizar, porque o espírito de sacrifício não é exclusivo das gerações anteriores. Não obstante, não restam dúvidas de que o modo de viver atual não está preparado para ele — para o sacrifício ou, de modo mais ligeiro, para o abdicar de umas coisas e opções em detrimento de outras.

Não obstante, de um modo geral, os jovens de hoje não prescindem dos bens materiais, vão de férias, viajam e vivem o dia a dia sem pensar muito no futuro. Milhares ainda vivem com os pais, não por dificuldades, mas por opção e por verem nisso uma vida confortável. Não pagam renda, nem cama nem mesa na maior parte dos casos — muitas vezes à custa de um esforço continuado dos pais, que hipotecam alguma serenidade e estabilidade nas suas reformas.

E, neste caso, não falo dos outros, mas do meu próprio caso. Tenho um filho já a chegar aos 30 anos e vejo nele uma total despreocupação relativamente ao seu futuro. Tem casa, mesa e roupa lavada a custo zero. Não contribui com um tostão. No entanto, tem um bom carro, uma mota, um conjunto de computadores para jogos, vai de férias, viaja para o estrangeiro e almoça e janta fora com os amigos.

Não o invejo, é certo, mas vejo nele o retrato de milhares de outros.

Eu comecei a trabalhar ainda não tinha 12 anos. Trabalhei, estudei à noite, fiz o serviço militar obrigatório de 2 anos, casei, tive filhos, comprei um terreno e fiz a minha casa, grande parte dela com as minhas próprias mãos. Pedi um empréstimo bancário com hipoteca do qual, felizmente e com os tais sacrifícios, já me livrei. Não nasci rico, não tive heranças e, sendo assalariado, nunca tive ordenados além do normal (pouco mais do que o salário mínimo). Mas compensava com muito trabalho extra, horas extraordinárias e part-times. Da minha esposa, o mesmo esforço.

Em contrapartida, férias eram só por perto e umas idas à praia mais próxima; nunca viajei, tenho dois carros velhos, etc.

Posto isto, não me venham com conversas de que hoje é tudo mais difícil. Será, certamente, mas sem essa palavrinha mal apreciada — sacrifício — e sem a escolha consciente de opções, não vejo como lá chegarão.

É bem mais fácil ir para manifestações e exigir que as coisas caiam do céu ou sejam financiadas pelos impostos de quem já muito deu e mesmo de quem tudo fez e se sacrificou para resolver o problema da sua própria habitação..

É a vida!

Sem comentários:

Enviar um comentário

Comentários sujeitos a aprovação. Comente em contexto e, mesmo que em sentido diferente, de forma respeitosa e construtiva.

Palavras incómodas

A propósito da indignação de muitas "florzinhas de cheiro" às palavras certeiras do  presidente do IHRU, Benjamim Pereira, pessoal...

Populares

Pesquisar neste blogue